
O escritor que recusou moldar a escrita
Altino do Tojal
(26 de julho de 1939 -15 de julho de 2018)
Nasceu em Braga, perdeu os pais em circunstâncias difíceis e foi criado pela tia Emília, professora primária, que lhe ensinou a ler aos cinco anos, e pelo avô, professor aposentado. Foi entre ambos que encontrou apoio e disciplina, mas também a imaginação que lhe despertou a vocação literária.
A infância dividiu-se entre Braga e as aldeias onde acompanhava a tia nas aulas, num ambiente de candeeiros a petróleo, estradas de carros de bois e crianças descalças. Desses dias guardou o fascínio pelas histórias contadas à noite, quando a tia, depois do terço, recriava contos com um dom quase mágico. Mais tarde, já com o avô, herdou o gosto pela arqueologia e pelas ruínas, divagações que lhe alimentaram o imaginário.
Aos vinte anos, com a cabeça cheia de sonhos e a bolsa vazia, aventurou-se clandestinamente pela fronteira, rumo ao Egito, pensando em escavações e glórias literárias. Acabou por ser preso em Espanha e devolvido, mas fez da adversidade matéria-prima de escritor.
De regresso a Portugal, entre o emprego na Biblioteca Pública de Braga e a espelunca imunda onde se hospedava, cultivou-se como autodidata e começou a escrever obsessivamente. O diretor da Biblioteca, Egídio Guimarães, incentivou-o a publicar o primeiro livro, Sardinhas e Lua, em 1964.
A obra cresceu, transformou-se em Os Putos, e tornou-se um fenómeno literário. Hoje, conta com 28 edições, adaptação para teatro, televisão e banda desenhada, e a última edição da Imprensa Nacional reúne 145 contos num volume de quase 700 páginas.
Apesar do sucesso, a vida nunca lhe foi fácil. Trabalhou em vários jornais — Jornal de Notícias, O Século e Comércio do Porto — de onde saiu, por vezes, pela porta pequena. A literatura nunca lhe garantiu estabilidade, mas Tojal recusou moldar a escrita às conveniências do mercado ou da ideologia. Definiu-se como um prosador puro, avesso ao neorrealismo, e defensor de uma prosa onde o real e o fantástico se entrelaçam.
Solitário, afastado dos holofotes, nunca se deixou seduzir pela televisão ou pela fama. Aceitou dar apenas uma entrevista, na qual deixou a ironia e a memória de quem viveu para contar histórias.
O nome de Altino do Tojal permanece ligado a Os Putos, um livro que, nas palavras de José Blanc de Portugal, bastaria para o inscrever no cânone. Não foi a notoriedade pública que o eternizou, mas a fidelidade a si próprio e à literatura, mesmo à custa de tudo o resto.
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